domingo, 24 de junho de 2007

Tudi e a escada

Tudi nunca desceu a escada de uma forma semelhante à anterior. Ela parecia um ninja escorregando pelo corre-mão, dando saltos e se jogando nos degraus como se estivesse em uma trincheira de guerra em uma batalha onde choviam rajadas de metralhadoras.

A liberdade era sua meta, seja alcançada pelo telhado ou no peito e na raça driblando as feras (nossas duas cadelas).

Duas semanas de vida para um gato deve corresponder a uns três anos de um humano, ou mais. Nunca vi um gato ficar velho, o prazo de validade do bichano beira no máximo os 3 anos. Ou vira ensopado servido com aguardente, clone de churrasco nos restaurantes em Aldeia ou simplesmente desaparece, um sinal que mudou de residência sem nem dar esclarecimentos ao cidadão que o alimentava anteriormente.

Vamos dizer que Tudi só teve alguns meses de vida, mas ela nos cativou durante duas semanas que ficarão marcadas nas nossas vidas. Parece exagero, mas essa gatinha vivia loucamente 24 horas por dia.

Ela poderia ser duble de cinema. Entre suas façanhas está a de morder fios elétricos como se aquilo fosse algo inerte e feito para ser mastigado. Correr patinando pela cerâmica, com curvas que lembram um cavalo-de-pau daqueles que exibicionistas fazem com seus automóveis. Tudi já enfrentou ventilador, canudinhos (ela adorava canudinhos, aqueles que usamos para tomar refrigerantes), canetas, panos de chão e até colchão ele chamava para briga.

Foram duas semanas que durante todas as madrugadas ela estupidamente escalava o móvel, deitava no gabinete do computador e com suas patinhas entrava em guerra com meu mouse. Não adiantava... Tirava ela desse reduto dezenas de vezes, ela sempre voltava. A única forma de acalmá-la era colocando-a no colo e aceitando algumas mordidas e aranhões até ser vencida pelos cafunés.

Na derradeira noite ao seu trágico fim, Tudi foi tratada de forma menos carinhosa, afinal eu estava a dias sem dormir graças a trabalhos acumulados e fui mais ríspido.

Mesmo sendo rejeitada, essa pequena criatura não largou do meu pé e tomou boa parte do meu precioso tempo fazendo peripécias com uma lapiseira grafite (Dava impressão que ela estava em luta com uma anaconda de 12 metros).

Já não era necessário despertador, as 5:30h Tudi se dirigia a porta do quarto e miava até ser atendida. Descia como uma louca pelas escadas. Seu destino era aquele pratinho vermelho, no qual era servida aquela coisa estranha chamada de ração para gatos. Vale salientar que acredito que o engenheiro químico ou seja lá qual profissional “desenha” esse produto, deve ser um puta sádico, e enfia pólvora e repolho nessa porcaria.

Em certo momento eu mesmo pensava em dar cabo de Tudi, aquele cocô era algo inaceitável. Sem falar da urina de gato que é pior que qualquer acido.

Mas no mundo moderno tudo tem jeito. Jeito e otário para comprar areia para cocô de gato, o produto promete o milagre, mas na verdade só servia de diversão para Tudi, ela adora ver minha cara emputecida enquanto ela arremessava aquela areia estranha em todas as direções fora do seu recipiente coletor de bosta.

Tá, eu assumo, nessas horas eu pensava em enviar Tudi para um passeio nas churrascarias de Aldeia. Inocente e aventureira como ela só, acho que iria feliz e saltitante.

O fim de toda essa divertida história que só durou duas semanas é horrendo mas era esperado. Tudi passou as grades que impediam a entrada de duas calmas cadelas nas dependências da casa. Flexa a nossa Husky é uma exímia caçadora, além de rápida nutria uma ira por Tudi e todo aquele seu poder de desafiá-la.

Acho que Flexa pensava:
_Essa gata filha da puta não sabe o que a aguarda... Fica ai afiando essas patas no tapete, mas ainda vai sentir meus dentes.

Não foi divertido, mas terminou assim. Claro que Flexa apanhou como já apanhara antes por seu temperamento, mas em pouco tempo retorno a minha consciência, ela é só um animal, fez o seu papel por mais cruel que seja.

Tudi em uma escala menor também cometeu suas atrocidades... Sapinhos e lagartixas não irão sentir sua falta. Mas nos, que adorávamos correr atrás dela, amávamos suas mordiscadas nos pés e riamos com ela tentando pegar os atores das novelas que apareciam na TV, nos sim, perdemos a gatinha mais louca e divertida do mundo.
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