terça-feira, 13 de novembro de 2007

Patrão sem empregado

"Estude para ser senhor do seu destino", foi o que disseram àquele menino - palavras que ele mastigou bem, e delas se lembraria durante o resto da vida. Estudou, concluiu os ensinos regulares, era um jovem médio, sem grandes problemas e com um mundo pela frente. Todo fim-de-semana ia à sua igrejinha professar sua religião e receber abençoados votos de felicidades. Virou um assalariado. Destacado, convenhamos. Quem sabe, até com reais possibilidades de crescimento onde trabalhava. Trabalhou durante algum tempo na área de produção, mas não se sentia bem em saber que hierarquicamente existiam outras vidas sobre ele, dentro da empresa. Decidiu jogar tudo pro alto. Estava longe de passar necessidades, pelo contrário... já ocupava postos desejados por muitos. Mas achou que tudo aquilo não pagava o preço de ser dono de seu próprio trabalho, "patrão de si mesmo". Danou-se a ler livros de negócios, conhecia toda a bibliografia dos milionários, decorou chavões comuns a empresários iniciantes, fez de tudo! Até que, com a grana acumulada durante o primeiro trabalho e com a venda de alguns artigos, abriu seu próprio negócio.


No início, foi até complicado. Mas ele sabia que tudo ia melhorar - "o único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário", era seu lema. Lema já muito batido, é verdade... mas ele não estava nem aí pra isso. Orgulhava-se de ter o próprio empreendimento, mas sobretudo da idéia de não ter patrão. Trabalhava duro, todas as horas possíveis, em todas as funções. Não tinha empregados... achava que o ideal seria somente gastar o necessário. Empregados seriam gastos supérfluos. Passou a rezar em casa, o tempo de ir à Igreja diminuíra. Ganhou uma grana boa depois da fase difícil. Só parava de trabalhar para refeições, e, boa-pinta como era, rodeado de pessoas, decretava um feriado para cada aniversário de um amigo, para ficar livre e aproveitar o momento. Comprava novos equipamentos pro seu pequeno negócio, assinava novas revistas trademark, procurava cada vez mais fazer crescer sua empresinha. Gastar com lazer? Nem pensar... sua receita, por maior que fosse, era sempre insuficiente às despesas que tinha com o próprio trabalho. Não podia ficar perdendo dinheiro com amenidades. Passou a não trabalhar somente nos domingos, dizia já ser tempo de sobra para matar com amigos e parentes. Almoçava na mesma escrivaninha em que fazia seu serviço, pela falta de tempo. Depois de muito assistir jornais e televisão, ouviu falar numa tal flexibilização de leis trabalhistas. Ele não tinha funcionários a quem respeitar direitos, mas fez questão de implantar a dita "flexibilização" em sua empresa. Não podia ficar de fora do showbizz patronal! Flexibilizou os próprios direitos. Decidiu que trabalharia o máximo de tempo possível, para obter todo o lucro alcançável! Não havia limites para ganhos (?)! Já não almoçava mais... deixava pra comer na hora de ir ao banheiro. Ao menos fazia tudo logo de uma vez. Também não rezava mais; não tinha tempo que pudesse ser dedicado a qualquer outra ocupação! "Minha religião à o lucro", dizia aos amigos - aos poucos que ainda apacientavam-se e conversavam com ele. Mas logos estes também minaram-se. Virou um empregado de si mesmo. Aliás, ainda pior: virou empregado de um patrão que não existe! Sem amigos, sem religião, sem sequer um abastecimento suficiente de comida... assim se deu, até o fim.


Viveu mais que os amigos, mas ao mesmo tempo menos que todos eles. Não foi ao funeral de ninguém. Não se lembrava de nenhum nome nos porta-retratos. Quando enfim morreu, não sangrou. No seu corpo corrompido, já não havia mais sinal de nada que fosse humano.


Esse texto é do Leon K. Nunes, do blog Literatura VIL.
Cópiado na cara-de-pau, mas com autorização :)
Os textos do cara sempre são alfinetadas, muito legal o blog dele, vale cada visita.
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