domingo, 21 de junho de 2009

O Lutador e o DNA


Acabei de ver um filme que faz tempo que estava na minha lista. Trata-se de “O Lutador” (The Wrestler). Não faz o gênero que me atrairia. Um filme com Mike Hourke, ator que eu sempre odiei. Primeiro por não gostar de suas interpretações, depois porque eu sou quadrado o suficiente para não dar um centavo de valor a pessoas com vida auto-destrutiva. Muitos irão me achar ridículo por me recusar a assistir um filme ou ouvir uma banda porque seus integrantes pregam uma vida desvairada e que caberia uma tarja na testa: “Tempo Curto”.

Na minha adolescência freqüentei sebos de discos, playtimes, bares do centro da cidade e outros inferninhos. Não entendo como nunca me corrompi, ou sequer carrego uma tatuagem com alguma imagem do Boris Vallejo. Eu poderia dizer que é devido a minha auto-estima, ou minha educação doméstica. Talvez tudo isso tenha pesado para que nunca tenha usado drogas ou um brinco ou adereço da moda. Eu escutava trash metal e musica clássica, mas não via motivos para usar um cabelo na cintura ou desejar ser um nobre do século XVI.

Nas minhas teses sobre comportamento humano, passei a acreditar que existe algo no DNA das pessoas que possui um peso muito forte em seu temperamento e comportamento. Claro que as pessoas mudam, criam modas, regras sociais e padrões, mesmo sabendo que com um tempo tudo é descartado e da lugar a novas vertentes, muitas delas não passam de copias do passado. Isso pode ser de roupas a comportamentos.

Quando li Freakonomics, eu não acreditei que aquilo havia sido editado, lançado e era sucesso nas livrarias do mundo. Existe a regra de que as pessoas acreditam no que elas aceitam. Tentar convencer um ateu a imaginar um ser superior é o mesmo que convencer um adolescente que colocar um alargador na orelha é algo idiota e feio. Cada pessoa cria sua visão do mundo a partir do seu circulo de convívio. Essa influência tem um peso, mas ai vem à pergunta... Será que não nos unimos aquilo que nos pertence?
Porque alguém nos dias de hoje, aceita ter a carne furada para ser erguido pelo “couro” e ficar pendurado como uma bola de arvore de natal?
Será que isso não vem do DNA dos povos primitivos?

Assistindo “O Lutador”, me vem à mente a triste sensação que sou um ser quadradão. Que mesmo adorando a psique humana, nunca entenderei porque algumas pessoas escolhem caminhos tão duros para si mesmas. Não vejo problema algum em uma pessoa ser fracassada aos olhos da sociedade. Mas na grande maioria das vezes, quando a sociedade lhe considera um fracassado, você realmente é um fracassado.

Mike Hourke nesse filme encara o papel de si mesmo. Na verdade, o personagem Randy Robinson é provavelmente muito mais amável e merecedor de respeito que o seu interprete. Figuras detestáveis que nutrem alto grau de afeto por parte do público e dos demais personagens que lhe circulam é o que não falta na ficção. Na vida real, queremos distancia de pessoas detestáveis. Se você não acha idiota e grotesco ficar sentado a uma mesa de refeição com um sujeito com um monte de metais perfurando seu rosto, é porque você muito provavelmente faz parte dessa “tribo” ou é um ser iluminado que tem muitas vidas encarnadas e já consegue compreender o que para a maioria é incompreensível.

Será o DNA que faz um sujeito crescer e decidir que vai ser lutador de vale tudo?
Mesmo sabendo que será espancado e terá que torturar outras pessoas isso é o motivo que lhe faz acordar todos os dias?

Alguns irão tentar achar respostas no histórico do sujeito. Virá a velha fórmula de que o sofrimento na infância tornou aquele ser abominável e membro de uma gangue skinhead.
Se usarmos essa regra para tudo, imaginem quantos psicopatas judeus o nazismo não criou?

Não acredito que situações extremas e dureza na vida tornam um ser humano pior ou melhor. Pode ser que ele tenha dificuldades, sofra mesmo sem imaginar o motivo, mas isso não o torna um fracassado.

Em “O Lutador” podemos observar o resumo de uma vida. Cedo ou tarde, as escolhas que fazemos se tornam nosso futuro. E o cruel para quem não tem o DNA disforme que o coloca como excreto para a sociedade é que a dor de não poder recomeçar tudo novamente deve ser imensa.

O verdadeiro DNA distorcido é aquele que não se afeta com sua própria dor. Pode passar anos na cadeia. Pode ter várias overdoses. Pode sofrer torturas, e mesmo assim, continuará a não ter medo, e desprezar a tudo e a todos. Acredito que esses assustadores seres são realmente uma minoria, porém, uma minoria que cresce.

Um dos termos procurados no Google que remetem ao blog aqui é “Como ser bandido”. Todas as vezes que percebo essa procura, fico de cabelo em pé, imaginando que alguém está na internet tentando encontrar um curso online de como fabricar crack ou roubar bancos.

É muito comovente ver filmes onde crianças não têm outra escolha a não ser entrar para o mundo do crime, e choramos quando elas sangram por furos de bala.

Você que leu até aqui, muito provavelmente não tem um DNA distorcido, não é uma criança sem oportunidades, mas pode ser um lutador que está no auge e esqueceu de que além do ring existe um mundo, pessoas e que seu futuro depende muito do que você está criando hoje.

Se quiser um mundo melhor, não dê chances ao nascimento de um ser com DNA distorcido, nem de crianças sem oportunidades ou amor. Seja responsável por quem você toca, por quem você está próximo e tente não entrar nesse ciclo moderno de que tudo é aceitável e permitido.
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