quarta-feira, 14 de maio de 2008

Cliente x Mercado x Ultra-capitalismo

















Primeiro é bom você se definir em que time está jogando...

Cliente
Este é pura e simplesmente aquele que tem o poder de compra, seja como tomador de decisão ou o proprietário da moeda de troca (normalmente dinheiro, cartão de credito ou financiamentos). Como todos somos compradores, todos são relacionados no universo como clientes. Sabemos muito bem nossos deveres como cliente: Dever nenhum.

O Cliente está protegido por diversas leis, hierarquias e organogramas que o tornam o centro do universo, mas a moeda de compra sempre é o que lhe torna mais poderoso.
Segundo a lógica vigente, sem moeda você passa a deixar de existir. Se tiver sorte pode morar em algum país a ser sorteado com a próxima bomba atômica e ter seu desenho moldado como tatuagem em alguma montanha a quilômetros do epicentro. Uma bela e poética forma de entrar para a historia.

O Mercado
Com a evolução do capitalismo selvagem, também nomeado de ultra-capitalismo, os mercados ricos tornaram-se pequenos para a expansão comercial, e na filosofia do desenvolvimento baseado no crescimento desenfreado, fronteiras teriam que deixar de ser barreiras, e isso aconteceu. Mas ainda era pouco. A indústria precisava ganhar mais, mesmo seus donos possuindo fortunas que seriam inesgotáveis para o maior de todos os gastadores do universo (Algo parecido foi mencionado por Larry Allison em sua descoberto que do bilhão de dólar em diante era possível comprar qualquer coisa).

Nesse momento algum cientista de negócios descobriu o poder da China, Índia, África e até dos futuros países do amanhã, como o Brasil (Aquele “amanhã” e “segunda-feira” que os obesos tanto se referem em suas promessas de regimes).
Eis que os Chineses aperfeiçoaram as técnicas do famoso Henry Ford, que ofertava carros pretos que podiam ser de qualquer cor, desde que preto.

Os chineses já começaram mais evoluídos, ofereciam várias cores, desde que o cliente não se importasse com a tinta que se largaria a primeira chuva ou vento ameno.
Os americanos e europeus criaram o marketing institucional da caridade, onde fabricar sabonetes do tamanho de uma bola de gude, xampu em saches de 50ml salvariam a áfrica de todos os males do universo. Infelizmente, a Unilever nos últimos 20 anos não conseguiu minimizar a miséria da África e nem sequer perfumar as pessoas, porém nem tudo tem final ruim, eles ganham muito dinheiro vendendo produtos subsidiados aos pobres e xampus de 3 ou 5 litros nos EUA.

E nos últimos 10 anos o mercado mundial é um só, e globalizado.

Ultra-capitalismo
O primeiro marco da globalização foram as caravelas dos portugueses e espanhóis, depois vieram as tecelagens vindas da Inglaterra junto com as ferrovias, e o mundo ficou mais rápido. Mas ainda precisávamos de mais. Então alguns grandes empresários descobriram naquela época que o negócio era comprar e vender sem manufaturar nada. E essa idéia pegou. Era bom para todo o ciclo. O fabricante/produtor tinha a quem vender sua produção sem se preocupar em ir atrás dos clientes. O cliente comprava um produto padronizado em um local certo, onde ele sabia que poderia confiar e continuar comprando. O varejista, aquele que era só um atravessador, era merecedor dos seus lucros, afinal ele facilitava a vida do consumidor e prometia ser atencioso e ofertar aquilo que era solicitado pela maioria (a massa).

Então veio a segunda-guerra, e o que ainda não havia se partido no primeiro grande conflito, explodiu junto com duas cidades japonesas.

Todos agora respeitavam os EUA (Da mesma forma que aquele moleque no meio da rua chutado pela população como cheira-cola quando consegue um Taurus 38). E todos queriam imitar aquela super potência que tinha rock and roll e muita comida enlatada para ofertar ao mundo, seus padrões e uma cultura... uma cultura... (Perai, qual é a cultura dos EUA mesmo?).
Bem, nem Henry Ford nem Rockfeller, quem marcou o comercio mundial após a segunda guerra foi um caipira avarento e obcecado em produzir e dominar tudo e todos que surgissem no seu caminho, um tal de Sam Walton, que fundou uma certa empresa chamada Wal-mart, que se subir alguns centavos o preço do quilo de arroz pode mudar os dígitos da inflação americana.
Não sei quem inventou uma regra que diz: “quem não for gigante, será engolido por um”.
Mas sei bem que ela é praticada do meio acadêmico até a barraca de pirulitos em frente às escolas (Opa! Estou ficando velho... As escolas agora tem cantinas, vendendo deliciosas pizzas ao óleo, refrigerante e tudo que tiver mais que 80% de açúcar).

Chegamos ao ponto
Tudo caminhava relativamente bem, com os americanos comprando suas garrafas de 5 livros de leite e os Africanos tomando banho com sabonetes que poderiam se perder em alguma parte do corpo, mas quando aconteceu o choque de duas culturas tão diferentes e parecidas ao mesmo tempo, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Simultaneamente o Wal-mart passou a vender produtos chineses ou de qualidade inferior, e os chineses passaram a tomar toda a industria de tecidos, sapatos e manufaturas de baixa tecnologia. Por outro lado, a indústria mundial passou a querer vender para a China e Índia.
E se eles não cobravam qualidade, ótimo... Era só produzir muito, esquecer normas sobre poluição ou qualquer outra coisa que parecesse soar racional, o que interessava é que iríamos ganhar centavos, mas venderíamos trilhões de produtos. Isso pode ser mostrado para acionistas que possuem distúrbios freudianos, e quando olham qualquer coisa subindo eles abrem os bolsos.
Eis que o ciclo funcional do comercio mundial está bem resumido aqui, mas uma coisa foi esquecida... A responsabilidade do cliente.
Não é só o dono da Oracle que fica alienado com o poder, e muito menos o John Davison Rockefeller será o ultimo monopolista a ser destronado. O cliente vive um momento de êxtase, ele pode tudo e não deve nada (só as 72 parcelas do carro e da casa).

Eticamente falando o cliente é um ser confuso. Ele sabe que o Mercado Livre é um local infestado de larápios, mas ele tem acesso e pode alegar que aquilo é como qualquer remédio vendido nas farmácias, compra quem quer ou precisa.

E só para lembrar, é a necessidade que faz meu amigo africano tomar banho com um sabonete que nos ocidentais ricos jogaríamos fora. É a necessidade que faz um chinês morar dentro de uma indústria, só folgar aos domingos para uma pelada de futebol e achar tudo maravilhoso (na fazenda ele só comia uma tigela de arroz por semana, agora come uma por dia). O indiano não é diferente de um brasileiro que adora tomar cerveja, e tanto ele como nos aqui, cada dia temos que trabalhar mais para “vender mais por menos”, como o slogam dos produtos do Wal-mart, que são de péssima qualidade.

Então caro cliente, se você quer mais por menos, você teve o direto de fazer sua escolha.

Eu particularmente não acredito que a vida dos países em desenvolvimento irá melhorar. Surgirão apenas mais alguns Sam Waltons chineses, africanos ou indianos, e o ciclo do poder só é alternado por uma minoria tão irrelevante que caberiam em uma folha de papel.

Quando você comprar no Mercado Livre lembre-se daquele menino cheirando cola, quando comprar seu Nike caríssimo lembre-se que alguém trabalhou nele por uma tigela de arroz. Quando pegar um taxi em NY e não entender nada que um indiano mau humorado falar, lembre-se que ele foi para a America acreditando em um sonho, sonho que talvez você nem tenha mais, afinal é muito mais prático deixar tudo como está.

Tenho um método fácil para provar como nada melhorou nos últimos 30 anos...
Os refrigerantes hoje são barris gigantes, mas nada tinha mais sabor que limonada Antarctica, hoje é uma decepção. O cheiro das verduras da feira, hoje nem cheiro existe mais (principalmente se elas vierem do Wal-mart).
As brincadeiras na rua, as brigas normais entre amigos, os joelhos ralados e os banhos de chuva... Conte suas historias aos seus filhos que estão vidrados em um vídeo-game, e até eles ficarão com saudades do que não viveram.

Mas você como um bom cliente não tem responsabilidade por nada.
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