quarta-feira, 12 de novembro de 2008

+450 km... É logo ali!



































São 3:45h, esse sono que nunca vem, essa angustia do fracasso por algo que nem sequer chegou a ser um projeto planejado em detalhes, era só um rabisco, mas parecia que iria ser uma casa tão linda, ventilada, com jardins verdes e flores coloridas.

O que ainda estou fazendo com esse copo de cerveja que de tanto tempo parado secou a espuma. Deveria ser um café, mas não, cerveja parecia combinar mais com o dia de hoje.

Pego as chaves do carro, e o sol já está querendo aparecer logo ali atrás do rio Capibaribe.
No som agora começa a tocar High and Dry. Se todos entendessem a beleza que existe por trás da dor, escutaria Radiohead.

Paro no posto para encher o tanque. Preciso confiar na autonomia do carro, já que decidi que hoje eu não tenho destino. Pensei em tomar mais duas garafas de Miller, mas estou sóbrio, e ainda não é meu dia de morrer na estrada.

Pego uma barra de chocolate ao leite na loja de conveniência lotada de jovens embriagados, todos com menos de 30 anos. Não sabem eles que esses risos falsos já me alegraram um dia.

Ao colocar a chave na ignição, com um bloco de chocolate na boca, ligo o som, começa a tocar Fake plastic trees, a música mais famosa do Radiohead, e que poucos entendem a letra, mas como já ouviram na TV ou rádio, acham maravilhosa, e eu muito mais.

O trecho de estrada que leva ao fim de Pernambuco, ligando ao estado da Paraíba nunca foi bom, sempre existem buracos e nada de acostamento. Por outro lado, o trecho que finaliza o Recife e começa a cidade de Abreu e Lima tem uma sequencia de curvas que fariam qualquer piloto iniciante se achar o Airton Senna.

Nessas curvas da BR 101 sinto os pneus gritarem, como se acompanhassem Nice Dream, e como essas curvas passam rápido... Que bom se elas não tivessem fim, e se esse carro passasse desses míseros 180 km/h.

Ao passar por Goiana me lembro quando rodei na pista numa noite de chuva, fui parar nos canaviais, e em um dos dias Lynchianos da vida, levei uma lanterna (algo havia me informado que eu deveria levar), tive que trocar um dos pneus em baixo de muita chuva e lama, mas todos os pneus haviam sido avariados. Parei em uma borracharia em Goiana, e fui a um bar estranho a procura de um banheiro. Além da decoração do banheiro lembrar o mais grotesco dos filmes de terror, ao sair do sanitário passei a reparrar que todos os clientes tinham serias deformações, aleijados, retardados, amputados e uma garçonete que transportava bebidas em uma bandeja segurada pelo seu único braço.

Agora era preciso mais atenção na estrada, o sol já estava começando a arder, e é nesse período que os caminhoneiros dormem ao volante.

Mais um trecho que no passado eu passava voando. Lembro de ter cortado uma fila com uns 50 carros. Andava tão rápido que o maior problema seria se algum motorista desatento não olhasse no retrovisor.

Mas eu não conseguia correr, começou a tocar Bullet proof ..i wish i was, a musica mais triste que já ouvi em toda minha vida (tem uma versão emo). Se eu escutar essa música 10 vezes seguidas, ela faz meu coração doer com a mesma intensidade por todas às vezes. E não é a marca de um amor frustrado, e essa droga de lado humanista/existencialista que tem pena desse mundo fragmentado.

Nada de sono, são 6:20h, e resolvo parar no Mangai em João Pessoa.
Que saudade dessa cidade linda e tranqüila. Quantos risos não gastei aqui nesse restaurante de garçons vestidos de cangaceiros. (Saudades de Paixão, a negona manontropo que um dia trabalhou ali).

Antes da tristeza me consumir, recuperei as energias com tapiocas, pão assado e queijo de coalho... claro, com um delicioso café com leite.

Nesse horário a avenida que corta a orla da cidade é fechada para carros, resolvi ir ver o mar.
Muitas pessoas caminham, é possível perceber porque a cidade é reconhecida por ser habitada por funcionários publico. Os temas das conversas dos transeuntes são sempre ligados ao seu trabalho, e boa parte deles andam em grupos de pessoas que fazem parte da mesma instituição governamental.

Vejo uma senhora passar com um Golden Retriever, e como é tradição de donos de cães dessa raça, eu paro o belo animal para ganhar um sorriso honesto. A senhora me conta sobre a historia de seu bichinho, e como ela não sobreviveria sem ele, já que ele foi uma fuga para sua perda recente, quando passou a carregar o titulo de viúva.

Não queria ter ouvido a historia daquela senhora. Péssimo momento para adquirir dor de terceiros.

Pego novamente a estrada, e fico frustrado por não poder pisar no acelerador, já que a pista esta em obras.

O único modo de relaxar é voltar ao meu CD, que agora começou a tocar a seqüência do disco Hail To The Theif, que muitos fãs do Radiohead não curtem muito. É um disco até mais pesado no sentido depressivo, mas é um marco na sonoridade da banda, que passa a usar ainda mais recursos eletrônicos.

Como isso não é disco para se ouvir em carro... Coloco uma novidade, Chants, Hymns And Dances, um disco para quem curte violoncelo clássico e piano. Anja Lechner e Vassilis Tsabropoulos mostram o que o pessoal de educação musical refinada sabe fazer na Grécia, terra de Vangelis.

Não é que a música é ruim, pelo contrario... Mas já são mais de 24 horas sem dormir, e com um som desses é impossível você não ter vontade de deitar nas nuvens. Para evitar conhecer o céu antes do tempo, mudo para algo mais animado, muito mais animado, Australia do The Shins, impossível não começar a estalar os dedos e balançar as pernas.

Já próximo a entrada que me levaria a Tibal do Sul, sou parado pela policia rodoviária, onde sou interrogado pelo meganha:

-Bom dia, indo para Natal?
-Talvez
-Pipa?
-Talvez!
-Pode descer do carro senhor
-Posso, mas por favor me dê um motivo
-O senhor é engraçado, e gostaria de fazer o teste do bafômetro 
-Ok
-Senhor, nosso bafômetro está quebrado
-E porque você me vez descer do carro?
-Achei que você estava embriagado
-Cara, é o seguinte...

Ai descrevi ao policial tudo que vinha acontecendo na minha vida nos últimos 6 anos. Ele me devolveu a carteira, quase me abraçou (suspeitei que ele era gay), e disse algumas palavras positivista. É, ele deve ser gay e ler livros de auto-ajuda.

Por vingança pela abordagem, arranco com o carro sobre uma camada de barro, o que levanta uma nuvem de poeira sobre todos os guardas e seus apetrechos que não funcionam.
Pensei que seria divertido uma perseguição na estrada, mas eles (os guardas) preferiram só comer poeira mesmo.

Ainda na “vibe” do The Shins, aperto o botão aleatório, e lá vem Going Down dos The Stones Roses, e as guitarras noventistas me lembram que não sou mais um garoto.

Resolvo que não irei pegar a estrada do sol, que corta o litoral mais lindo do Brasil, e é meu caminho oficial para diversão. Sigo direto para Natal.

Meu Deus como eu amo o ar dessa cidade. Já são 9:00h, e para quem não imagina, cidades com menos de um milhão de habitantes também tem engarrafamentos.

Passo em frente a UFRN, um lugar que me fez vir para esse lugar mágico por anos, e com uma freqüência que só motoristas de caminhão poderiam imaginar. Conheci professores dignos e muita gente honesta. Funcionários públicos que mereceriam filmes em sua homenagem.

E agora? Para onde vou?
Queria ver a nova ponte, queria ir para um certo ponto do centro, onde de uma ladeira é possível ver toda a cidade... Mas resolvi fazer a volta, e retornar a BR 101.

Agora sim, pista livre...
Depois que termina a cidade capital do Rio Grande do Norte, você começa a entender porque os cientistas alegam que o Nordeste está virando um deserto.
O calor é sufocante e o asfalto emite um som de atrito com os pneus que chega a assustar.

Sabendo que esse trecho a caminho de Mossoró sempre tem jumentos atravessando, resolvo tirar o pé do acelerador. Ainda muito zen com o som dos Stone Roses, defino minha próxima parada.

80 km depois de Natal entro no acesso que leva a Maracajaú, um dos lugares mais mágicos que já pisei (pisei não, porque lá não se pode pisar nos corais).

O sol já havia queimado meus braços erguidos no volante, agora era hora de torrar o resto do corpo. Dei sorte e a maré estava baixa, sem vento e nada de nuvem no infinito azul.

Como estamos em novembro, e não é um fim de semana, a lancha que leva os turistas aos Parrachos (banco de corais), teve que sair apenas comigo e uma francesa.

Mentalmente começou a tocar  minha trilha oficial de praia, que é o soundtrack do filme “Instinto Selvagem” (Sliver). Percebi que o animo estava voltando a circular nas veias.

A minha nova amiga francesa iria mergulhar de cilindro, pagando uma pequena fortuna. Eu disse a ela que não seria a melhor opção. Perguntei se ela se dava bem em apnéia, a resposta foi um sim muito sorridente.

O instrutor não gostou é claro, e não gostou mais ainda, quando levei a gringa para a segunda doca, que fica a uns 80 metros da primeira, e estava fechada já que não havia um numero suficiente de turistas.

Na verdade, fui para a segunda doca porque próximo a ela ficam os pontos mais profundos, que não chegam a 6 metros com maré baixa. Minha amiga Eva se mostrou muito experiente e com bom fôlego, e comecei a procurar alguns pontos que eu já conhecia de outras visitas. Encontrei o local onde já havia visto moréias, e levei Eva a uns 4 metros, onde ela pode quase que tocar uma moréia enorme, e ver uma delas andando entre os corais, exibindo uma cor muito rara, um verde quase fosforescente.

Ainda avistamos uma pequena tartaruga, anêmonas, peixes borboletas e lagostas.

As horas passam como se fossem segundos. E os guias que nos esqueceram por completo, ficam surpresos quando retornamos a doca.

Eva me dá um beijo de agradecimento, algo tão meigo como uma irmã mais nova que recebe um doce.

A lancha nos desembarca na praia.
Sinto meus pulmões. Sinto meu diafragma, esse músculo que eu nem acreditava ser ainda forte. Sinto minha bexiga que é enorme graças a tantos mergulhos na adolescência.
Sinto a água do mar que é expulsa pelas narinas, num fluxo reverso que eu não passava a muito tempo.

Não queria olhar para a Eva, já havia percebido o quanto ela era linda em seu corpo branco e alongado. Estava ali para esquecer outra mulher, e não iria usar a tática de substituição automática.

Tomei um banho no chuveirão da praia. Segui até o único restaurante do local que um dia foi uma colônia de pescadores, hoje vive do turismo. Traz um camarão alho e óleo falei para o garçom caiçara que passou ao lado da mesa.

Comi rapidamente, mesmo que aquele momento merecesse toda a calma do mundo. Pensei em conseguir uma rede e dormir por lá, mas resolvi voltar.

Alma renovada, corpo exausto, e a paisagem de dunas que parecem nos engolir.
chego novamente a uma encruzilhada da BR 101, a direita o Ceará, a esquerda o sul, minha casa, meu destino (Será tão fácil assim escolher o destino? Será que as pessoas sabem o que é melhor para elas?).

E esse maldito equipamento de som que faz uma seleção que tenta me jogar ao chão... agora toca In Motion #1 do The Gathering, que foi precedida da seqüência: Kevin’s Telescope,  Frail (You Might As Well Be Me) e Great Ocean Road, essa ultima me fez jogar o volume no máximo (Será minha música oficial quando estiver percorrendo a referida estrada na Austrália).

Cansei de coisas down. Paro o carro e como um cão que cava um osso, fuço entre os CDs, até achar Slive, aquela trilha sonora do filme “Invasão de Privacidade” que mencionei. Começa com a lentinha Can't Help Falling In Love With You do UB40, e fico esperando a seqüência, que é simplesmente perfeita. Tão perfeita que é meu CD oficial de viagens alegres, cheias de praias e dias ensolarados.

Vou encerrando esse texto escutando Age of Loneliness (Carly's Song), da mesma trilha, com as famosas vozes sensuais do Enigma. A música é perfeita para a Sharon Stone em seu papel.

A letra é de uma simplicidade que consegue explicar tudo:

Idade da solidão

Carly não fique triste
A vida é louca
A vida é louca
Não tenha medo

Carly não fique triste
Este é o seu destino
A única chance
Tome-o, tome-o em suas mãos


Preciso de férias a muito tempo.
Preciso muito.
Por enquanto vou continuar só ouvindo as trilhas.

 

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