domingo, 8 de março de 2009

Carnaval, Mulher e Tia

O carnaval passou.

Ele passa todos os anos.
Uma das coisas que me marcou antes e durante o carnaval, foi uma frase repetida algumas vezes: _Que Mané de marchinha!?

Essa frase era algo que traduzia um conceito, o jeito de ver as coisas de uma pessoa com vinte e poucos anos. Uma ostentação a vitória de ser jovem e menosprezar aquilo que nem conheceu. Não era por falta de respeito, é só um pecado aceitável para quem ainda é jovem.

Infelizmente não sou do tempo das marchinhas, dos sambas poéticos ou das fantasias ricas de babados e poucas cores (Sim, nem sempre o carnaval foi multicolorido).
Se eu tivesse vinte e poucos anos na década de 20 do século passado, acredito que adoraria carnaval.

As pessoas “modernas” de hoje temem a velhice, a morte e a tristeza. Como se houvesse escolha ou saída para essas coisas que a meu ver deveriam até ser consideradas boas.
Meu carnaval foi mais que alegre, foi inusitado.

Só as pessoas que viveram comigo conhecem todas as historias por que já passei. Boa parte delas acham-me o maior dos mentirosos da terra. São tantas aventuras, tantos momentos que não foram provocados ou procurados... Tudo me pressionando a acreditar que existe algo maior, uma força acima do explicável. (E fico equilibrado entre o cético e o agnóstico – mais para agnóstico)
Na juventude eu até me divertia com essas coisas. Ser atirado por algo invisível que me salvou de um atropelamento. Desistir de lutar contra um pedaço de rede de pesca que me prendia a poucos centímetros do oxigênio e no ultimo instante ser solto já sem forças por ter lutado contra aqueles pedaços de nylon. A ultima grande intervenção inexplicável foi quando decidi há alguns anos atrás comprar uma moto.

Na semana que passei a procura de uma possante moto, um motoqueiro bateu na porta do meu carro e vi aquele estúpido piloto voar a mais de 3 metros de altura e uns 10 metros a frente, colidindo com galhos e arvores (ele não sofreu nada). No dia seguinte vi um homem com porte de halterofilista erguer metade do seu corpo com os braços, gritando e olhando suas pernas esmagadas (ele estava em uma moto). Antes que a semana findasse, no trajeto para casa também pude ver por dois dias corpos de motoqueiros, que para me deixar ainda mais chocado pareciam bonecos onde o asfalto agora fazia parte daquele amontoado de carne morta. Só para esclarecer, eu jamais paro para ver acidentes, não sou chegado a historias policiais, mas todos esses fatos ocorreram com um ângulo de câmera de cinema, e estou falando de uma visão privilegiada, como se tudo aquilo tivesse que fazer parte da minha mente.

Mesmo morando em uma cidade violenta, onde vejo todos os dias coisas abomináveis (você achou que o nome é Caos Urbanus por quê?) , tudo aquilo era demais para acreditar em coincidência. Desisti de ter uma moto.

Então, depois de muitos anos, sem nada que me fizesse acreditar em uma nova missão para essa vida. Começo a receber sinais de que ainda tenho muito a fazer.
Não vou revelar o que passei.
Até as pessoas envolvidas me achariam louco. Mas sei que agora já faço parte do destino de mais algumas vidas. E dessa vez, acredito que minha missão não será tão árdua e penosa. (A-rá... Como se eu ganhasse alguma coisa fácil nessa estrada).

E sobre os carnavais de outrora, eu digo, adoraria ter 80 anos hoje, ou mais... Eu teria vivido em um mundo com mais pobreza, com mais doenças incuráveis e com mais “tristeza”, mas seria um mundo de verdade, não essa matrix que vivemos.
Para os mais espiritualizados, posso falar que me vejo como um privilegiado. Não sei porque diabos, mas acho que passei a acreditar que todos temos missões. E se você aceitar sua importância, pequena ou grande para a mudança das coisas, passará a viver no mundo do “Efeito Borboleta”. E acredite, é muito bom saber que você tem um papel a cumprir.


Minha Tia Noêmia
E como hoje é dia das mulheres (tem até dia gay, mas macho não tem direito nem a um dia sequer... ), nada melhor que contar um pouco sobre essa mulher fantastica que é minha tia.

Amanhã irei a festa de aniversário da minha querida tia Noêmia.
Existe uma grande chance desse ser o ultimo aniversário dessa mulher que me inspirou desde minha primeira lembrança de vida.

Sem tia Noêmia eu não teria provado pela primeira vez Danone ainda quando criança.
Sim, minha família era pobre ao ponto de não ter dinheiro para supérfluos como iogurte.
Noêmia não era rica, pelo contrário. Vivia em uma casa muito simples, onde a parte frontal era de sapê, aquelas paredes feitas com barro recobrindo madeiras. A cozinha era toda feita em madeira, como uma daquelas casas de gente pobre do sul do Brasil.

Mas nem por esses traços a casa de minha tia era feia, pelo contrário. Ela sempre foi a pessoa de mais bom gosto que conheci na minha infância.
Minha tia nem imagina, mas é responsável pelo meu primeiro contato com a tecnologia. Eu tinha apenas 7 anos de idade, e ela me levou algumas vezes para a Aeronáutica, onde trabalhava perfurando cartões.

Explicação:
Cartão perfurado era um meio de armazenamento e transporte de dados que era usado nos primórdios da computação. Programadores escreviam programas em papel (maquina de escrever), esses textos eram enviados para digitadores, que escreviam tudo que estava ali, e uma maquina perfurava cartões de papel rígido, que eram levados a uma outra maquina que lia esses cartões de acordo com os furos, e daí executavam o programa, ou armazenavam tudo em fitas magnéticas.

Aos 7 anos eu não entendia aquele sistema, mas ficava intrigado com aquele senhor que passava o dia indo e vindo pegar pacotes de cartões perfurados que eram transportador em um carrinho de mão (Só para você ter idéia, acredito que mais de 100 carrinhos desses não possuíam dados suficientes para encher meio disquete... Só lembrando, um pendrive pode conter milhares de disquetes).

Na aeronáutica tive a oportunidade de me infiltrar em setores estratégicos, ver como funcionava a rotina de quartéis, cozinha industrial e salas de controle (Como eu iria imaginar que um dia projetaria e venderia salas de controle?).

Mas uma das coisas mais marcantes foi entrar nos aviões da segunda guerra e ver os primeiros aviões Tucano serem montados ou ainda os pilotos que brincavam com o “F-alguma coisa” e os russos Mig (Não sei o nome e modelos exato desses aviões).

Juntando as imagens da guerra do Vietnã e aqueles velhos aviões perfurados de balas e ainda com manchas de sangue e restos de roupa dos pilotos, aprendi muito cedo que guerra não era minha praia.
Minha tia era o que se poderia chamar de militar. Durona e nada chegada a afagos, ela era rígida. Tudo tinha que ser exatamente como ela planejava e ordenava em casa.

Criou três filhos homem sozinha (frase sempre repetida por minha mãe).

Cada um desses meus primos teve uma importância na minha vida.

Fernando, meu companheiro de mergulho, foi muito mais que um amigo. Foi um pai para mim.
Me ensinou a gostar de crianças, mesmo quando eu ainda era uma.
Eu ficava totalmente fascinado pelo carisma que ele despertava nas crianças.
Esse cara me ensinou tudo que tenho de bom dentro de mim, tudo mesmo.
E graças a sua mãe, me tornei durão, ou melhor, me mantive equilibrado ou sempre preparado para Guerra, mesmo sem gostar de brigas.

Fernando era o cara mais inteligente que eu conhecia. Um desenhista técnico primoroso. Perfeccionista. Ele me ensinou a manusear maquinas, que foram muito usadas em nossas criações para caça-submarina (As invenções eram ótimas, e éramos péssimos caçadores).
Foi também esse cara que me ensinou (ele não falava o que fazer, eu só o seguia) a ser cordial com mulheres, a tratá-las com respeito e carinho.

Aprendi com ele que não devo seguir pessoas como espelho.
Quando meu querido primo-amigo-pai, passou a beber além da conta, tive que me afastar.
Como observador, vi um cara maravilhoso mudar seu comportamento e mesmo ainda muito jovem, passei a tentar entender o gatilho que faz as pessoas perderem o rumo.

Meu primo era um apaixonado, e acredito que seu gatilho foi a frustração no amor.
Hoje, sei que esse é um dos grandes gatilhos que levam as pessoas a mudarem o rumo.
Como todos temem esse tipo de frustração, a sociedade vem impondo a retirada dessa armadilha pré-configurada. Particularmente admiro meu primo ainda hoje. Prefiro os frustrados e amargos aos seres sem alma.

Meu outro primo, Fábio, me levou ao primeiro emprego oficial.
Eu ainda não tinha feito 14 anos, e fui “jogado” ao mundo caótico do centro da cidade.
Era a boemia, lojas de discos alternativos, flyperamas, sebos, cheira-colas, ladrões, ônibus, almoço em quentinha, e outra infinidade de coisas que eu odiava na época, e que em pouco tempo passou a ser minha vida.

Trabalhar em um banco, e ter uma turma de beberrões formada já no primeiro dia de serviço, e o mesmo que receber um certificado de alcoólatra pré-aprovado aos 13 anos.
Mas novamente eu tinha exemplos, em primeiro lugar estava minha tia Noêmia.

Ela tinha a casa mais limpa da rua. Era a mais pacata e menos chegada a fofocas, e era impossível imaginar alguém mais idônea.
Era minha tia que muitas vezes enfrentava meu pai, alcoólatra de carteirinha, apesar de ser um homem idôneo também.
Eu não queria ser como meu pai, eu queria ser como minha tia.

Fábio também ajudou na minha formação. Aprendi com ele a ter paciência de esperar os resultados e a suportar as criticas que sempre se acumulam contra aqueles que tem objetivos.

O ultimo dos primos não me fez conhecer as maravilhas de um centro urbano em efervescência, mas também teve grande importância na minha vida. Foi Flávio que me levou as primeiras sessões de cinema, no magnífico Cinema São Luis, o cinema mais fantástico de todo o Brasil (Espero um dia ficar milionário, comprá-lo e deixá-lo exatamente como era).

Flávio também sem querer me ensinou... Ele teve um casamento conturbado (também passei por isso) e demorou demais para solucionar um problema sem cura simples.
Volto a lembrar da mãe dos meus primos. Ela sempre foi pratica, sim ou não, nada de enrolação, a vida é simples.

Minha tia também viajava sempre que podia para o Sudeste ou Sul do país, algo que era impensável para toda a família da minha mãe, que sempre foi pobre.

Provavelmente sem a existência da minha tia Noêmia eu não saberia o que foi a informática dos anos 70 (ainda mais vendo ao vivo), não teria passado parte da vida ligado ao mar (graças a Fernando). Não conheceria as malandragens e dureza de um centro urbano (que o Fábio e sua mulher Therezinha me propiciaram). Não teria assistido filmes de Renato Aragão na maior sala de cinema do país e comido pipoca com guaraná antes disso virá propaganda (Devo ao Flávio).

As pessoas normalmente avaliam suas vidas baseadas no que construíram de patrimônio, formação educacional ou quanto sexo fizeram e farras que participaram. Não existe regra para avaliar uma vida melhor ou pior. IDH não mete felicidade, nem extrato bancário ou virilidade aos 70 anos... Cada um tem sua receita, a minha é ser observador, aprender com as pessoas e com meus próprios erros, tentar mostrar o que parece um provável erro, e muitas vezes falar: 
Erre!
Dê uma chance!
Invista!
Acredite!
E não esqueça, tudo é “Efeito Borboleta”... Cedo ou tarde, situações do dia a dia, eventos pequenos ou grandes estão traçando sua vida e dos que estão próximos a você.

A idade e a doença não tiraram sequer por um dia toda a dignidade e dureza que minha querida tia possui. Ela é uma rocha. Ela me inspira.

Acho que falei isso no primeiro dos textos que escrevi no blog...
Na vida algumas pessoas só passam, e você aperta a mão, mas algumas você abraça.

Amanhã abraçarei minha tia, e como ela tem mal de Alzheimer, em 20 segundos esquecerá que a abracei, então acho que irei abraçá-la dezenas de vezes durante o dia.
Espero que toda essa energia sem explicação lógica, que vivo, sinto e me mostra sinais que nem tudo tem explicação, tenha um mundo particular reservado para essa mulher fantástica.
Uma só vida para pessoas assim é muito pouco.


(Isso foi escrito na sexta-feira, e sábado rolou a festinha que é sempre empolgada por um monte de primos bons de piadas. Com participação especial de Flexa e Lua, que agora moram com meu primo Fábio).

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